Para as gerações futuras que ainda estarão na fase de construção da própria personalidade, desde a primeira infância, quero tranquilizá-los: ser LGBTQIA+ não é o fim do mundo.
Vocês talvez precisem correr mais do que qualquer outra pessoa para alcançar os mesmos resultados e sabemos que é assim. Mas construir a própria identidade nesse contexto pode ser uma cilada, porque a sociedade não é justa conosco. Ela nos obriga, desde cedo, a omitir partes de quem somos.
A verdade é que vocês não precisam alcançar os mesmos resultados. Vocês já estão à frente de qualquer pessoa simplesmente por terem coragem de ser quem são.
Nós, pessoas LGBTQIA+, tendemos a desenvolver um autoconhecimento muito além das outras crianças, adolescentes, jovens e adultos. Desde muito cedo aprendemos a nos olhar sem medo de quem somos, afinal já nos ensinaram a nos odiar. O que nos resta é aprender a nos enxergar além disso.
Por isso existe em nós uma busca incessante pelo nosso próprio eu. Amadurecemos mais rápido, desenvolvemos um senso crítico aguçado e um olhar atento para dentro. Sabemos nos acolher quando necessário, e ainda mais, nos cobramos quando é preciso.
Certa vez li sobre o tempo queer, esse tempo em que nós, dessa comunidade, vivemos. Passei alguns anos me sentindo deslocada da sociedade: velha demais para pessoas da minha idade e nova demais para pessoas mais velhas. Foi assim ao longo da minha vida.
Quando conheci a leitura do tempo queer percebi que ela explicava muito do que eu sentia. No início enxerguei tudo de forma negativa, como se fosse mais um peso. Com o tempo, em um processo longo, tive um insight. Percebi que construí um autoconhecimento profundo, uma didática comigo mesma. Esse autoconhecimento poucos terão ao longo da vida, mas quem o tem precisa olhar para ele como uma dádiva conquistada.
Sabemos que há muitas dores, muitos motivos para se odiar e odiar o mundo. Muitos outros para se lamentar e se esconder. Mas aquelas que têm coragem de ascender serão as mais brilhantes em tudo o que decidirem ser e, mais do que isso, serão profundamente felizes como seres humanos.
Não penso que a missão da vida seja apenas trabalhar e enriquecer-se. Acredito que nascemos para sermos o melhor da nossa natureza e para acrescentarmos algo à natureza dos outros. Por muito tempo essa nuvem nos atormentou, a nuvem de não nos deixarem ser quem éramos. O que fizemos foi nos tornarmos e nos reinventarmos.
Um caminho árduo, cheio de dores e medos? Sim. Mas percebe como essas coisas te engrandeceram e te enriqueceram de tal forma que tocaram tua própria essência e a existência dos que estão à tua volta?
Escrevendo este texto lembrei de outra leitura que colaborou para esse mesmo estalar de dedos: A Liberdade é uma Escolha, de Edith Eger.
“Alguns prisioneiros, quando os portões de Auschwitz se abriram, não quiseram sair. Tinham medo da liberdade. Estavam tão acostumados a receber ordens, a viver em cativeiro, que não sabiam o que fazer quando finalmente podiam escolher.”
Não vou entrar nesse campo, porque sei o quanto esse assunto é delicado e quanto é difícil discorrer sobre esse tema.
A mente pode estar aprisionada naquilo que nos foi ensinado, em crenças antigas das quais já fomos libertas. Uma coisa, porém, é certa: a felicidade não depende de sucesso, aprovação ou sorte. Ser feliz é um ato de coragem e responsabilidade pessoal, uma escolha renovada a cada dia.
Deixe uma resposta