quando o esquecimento é um convite para reaprender

Nesses últimos dias me deparei com alguns pensamentos e anotei tudo no bloco de notas para não correr o risco de esquecer. Logo depois fiz uma breve pesquisa e encontrei um arquivo científico, pois a verdade é esta: nada em mim fica apenas no campo da imaginação. Busquei estudos que reafirmassem esse pensamento e que…

Nesses últimos dias me deparei com alguns pensamentos e anotei tudo no bloco de notas para não correr o risco de esquecer. Logo depois fiz uma breve pesquisa e encontrei um arquivo científico, pois a verdade é esta: nada em mim fica apenas no campo da imaginação. Busquei estudos que reafirmassem esse pensamento e que certamente veio de alguma leitura antiga que já devo ter feito.

Ainda durante o cardio na academia comecei a ler e só terminei à noite, já deitada. Concluí que alguma religião talvez tenha outra explicação ou até mesmo outro estudo sobre o tema, mas o fato é que sempre que a mente te faz esquecer de algo ela te oferece a chance de reaprender o novo.

E essa frase ficou ecoando durante toda a semana na minha cabeça. Óbvio que há nela um tom poético, especialmente na parte do “reaprender”, que foi um oportunismo, confesso. Mas no fundo é verdade, pois a nossa memória RAM nos livra de muitos traumas. No fim das contas quem nunca teve um apagão de memória em algum momento? Aquele episódio mais traumático da sua vida que você não lembra.

Certa vez vi uma garota dizendo que não se recorda do primeiro semestre do ano passado e outra, em um caso mais grave, contou que não se lembra do que aconteceu nos últimos dois anos. Muitas pessoas esqueceram dos acontecimentos durante o período da pandemia da Covid-19. Também ouvi o relato de uma mulher que desenvolveu pavor de borboletas sem saber o motivo até que em uma sessão de terapia desbloqueou uma lembrança da infância. Ela havia passado parte da infância em uma clínica infantil com papel de parede de borboletas e certamente sua terapeuta conseguiu acessar o modo difuso do cérebro, aquele responsável pelos insights e pelas revelações sutis que aparecem quando menos esperamos.

Com o tempo, entendi que as memórias “apagadas” não são realmente apagadas. Elas estão apenas esquecidas, guardadas em algum lugar de difícil acesso. Passei seis meses em terapia e foi o bastante para entender o poder que o autoconhecimento tem de abrir essas gavetas internas. A cada sessão era como se uma nova camada de mim fosse sendo revelada, às vezes com dor e outras com alívio, e percebi que mais do que lembrar o processo era sobre reorganizar o que foi vivido e dar novos significados ao que parecia esquecido.

A terapia me ensinou que o cérebro não é inimigo das nossas dores, mas um guardião sábio e gentil. Ele entende quando algo precisa ser silenciado por um tempo para nos manter de pé e só depois, quando estamos mais inteiros, devolve essas lembranças não mais como feridas abertas, mas como cicatrizes que contam uma história.

Esse esquecimento nos faz criar novas memórias e talvez seja justamente esse o propósito de lembrar e esquecer: abrir espaço para que o novo tenha onde morar. Há algo de bonito em perceber que o cérebro com toda a sua complexidade também é um guardião gentil, pois ele protege o que dói, silencia o que ainda não sabemos lidar e quando estamos prontos devolve o que ficou esquecido em forma de compreensão. Reaprender é isso: olhar para dentro com outros olhos, com mais calma e com mais amor. Talvez o esquecimento não seja uma falha mas uma pausa necessária um intervalo entre o que fomos e o que estamos prontos para ser.

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